quarta-feira, 17 de setembro de 2008














"Eu procurei-te e tu surgiste em verso, bem na palma da minha mão. A utopia começava a escrever-se, límpida.

E tal como peixes a morrerem de encontro às malhas rudes da rede, as palavras morriam para o mundo, a fim de viverem para mim. Senti-me ingrato. Senti que mergulhava num universo recheado de pensamentos, apenas e só pensamentos. Sentia-os brotar naquele momento, em rebentos floridos, no jardim do espaço e do tempo. E nesse instante em que o monstro da poesia rugia de encontro ao meu peito, percebi que tinha saldado a dívida que me marcara a infância, e me fizera crescer rodeado de vagas tumultuosas.

Não corria a mais leve aragem, pelo que fechei os olhos e inspirei fundo. Sentia-me apaixonado e tentado a lutar, de novo. A vida voltara a ser o leque perfeito de pensamentos e memórias. Voltara a ser fácil ver as fotografias que não tiramos, ver os videos nunca gravados passarem, reais, no preto e branco da mente. E uma vez que os ponteiros de metal gritavam o avanço da hora, despia-me de fantasmas e levava-te comigo para a calmia soturna do profundo silêncio."

1 comentário:

Janine disse...

Dá-me um pouco dessa coragem. Diz-me como o fizeste, diz-me como mudar de ares sem sair do sítio.