segunda-feira, 15 de setembro de 2008

- Abismo -

AH! A ANGÚSTIA, a raiva vil, o desespero
De não poder confessar
Num tom de grito, num último grito austero
Meu coração a sangrar!

Falo, e as palavras que digo são um som
Sofro, e sou eu.
Ah! Arrancar à música o segredo do tom
Do grito seu!


Ah! Fúria de a dor nem ter sorte em gritar,
De o grito não ter
Alcance maior que o silêncio, que volta, do ar
Na noite sem ser!

(Fernando Pessoa, Cancioneiro)


Hoje sinto-me assim:
- Sinto, não sei se sinto ou se sei sentir o que sinto, se sinto o que sentiria se sentisse.
Hoje não sou capaz. Pura e simplesmente deixei que me cortassem as asas que me faziam voar, e escrever enquanto voava. E não quero que me digas "Sente!", não quero me grites "Não desistas e luta!", não tolero que me tentes sussurrar palavras de conforto. Eu não mereço o teu abraço, não quero o teu sorriso, e estou farto desses teus olhos que só tendem a cegar os meus. Chega! Preciso que pares. Acaba com toques puros, acaba com olhares penetrantes, e põe fim, de uma vez, à esperança que me dilacerava como fogo. Preciso do teu "Não" agora, amanhã, ou depois. Tretas! Tretas o que dizes sentir. Tretas o que me fazes pensar. Tretas, tretas, tretas! Que diabo é isto afinal !? Continua tu, só tu. No entanto, eu não quero continuar eu.

Preciso de algum tempo. Tempo para morrer e nascer de novo.

1 comentário:

Janine disse...

Apesar do que sei, digo-te com a maior sinceridade que tens aqui um texto acima da maioria que já li. Está explícito e metafórico ao mesmo tempo. Adorei.