sábado, 29 de novembro de 2008

Maré vaza



Agora que o silêncio da noite se cinge ao negrume, sinto que partes

Foi talvez o derradeiro dia.

O último em que as nossas mãos se deram, o último em que os nossos olhos luziram, o último em que os nossos corpos caíram mortiços no poço imenso do vazio. Peço-te, porém, que imagines a encenação perfeita do nosso último momento. Peço-te que a tornes sublime aos olhos do deus no qual me dizias acreditar. Peço-te que a desenhes com contornos definidos e cores destoantes, que tonifiques os elementos da composição e salpiques de estrelas apagadas o céu que nos abrigava no instante. Consegues imaginar? Emprega, então, todo teu talento fantasista nessa derradeira memória, aprisiona-a em frases curtas e finaliza cada um dos pontos finais com caneta de tinta permanente. Envolve as folhas bolorentas num tecido aveludado que se funda na mensagem, e arruma tudo numa garrafa de vidro selada e derrotada pelo tempo. Inspira fundo. Quando sentires que a hora finalmente chegou, lança tudo de chofre na onda irrefutável do infinito e espera que o mar leve para sempre tudo o que outrora representei, ou não, para ti.

2 comentários:

Janine disse...

As tuas palavras roubam-me o pensamento. Cada conjunto de letras apura cada um dos meus sentidos, até que se elevam acima de tudo o resto. A partir daí sou só eu, sozinha, a sentir o que escreves. Ou melhor, a sentir o que sentiste, quando escreveste.
É por isso que digo que és o meu artista. Desenhas em mim, dentro de mim, o sentimento que sempre sonhei ter. E o importante é que o fazes sem sequer me tocares.
Porque o fazes? Porque sim.
*

Margarida disse...

Sempre que sentires que alguém parte, fecha os olhos. Eu ainda aí estou. Eu não fugi. Estou aí, encostada, a ouvir o bater do teu coração. Como no nosso "último" momento, que mais não foi
que um prelúdio para os próximos. Porque o nosso fim será ainda depois do "para sempre".
Adoro-te
...
hoje
...
amanhã
...
e no fim!
(6 dias para o nosso Crepúsculo)