segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Fado, em mim.


Cantai, ó almas ingratas!
Esculpi tons harmónicos,
Nas velas das vossas fragatas.


Aventurai-vos pela cordas vibrantes do destino. Senti o leme bem prostrado e o vento bater-vos nos cabelos. Não desistais à primeira onda de infortúnios. Não hesiteis à segunda. Confiai na volúpia do arco, confiai na audácia das trombetas e ousai cantar recordações. Não nasceis derrotados, cresceis derrotados, ou nem sequer tereis o prazer de morrer, derrotados ou não! Enquanto houver alma lusitana, não estareis sós. Respeitai o choro da nossa guitarra, atemporal. Temer, temei antes o seu silêncio. O instante é o momento, e o medo é o pesadelo do qual nós, herdeiros de Camões, já acordamos há muito tempo!

Esperança - o fado ainda é nosso.


r.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Fado, para ti.



Natal.

Passaram mil e oitenta e sete dias, dez horas, sete minutos e meia-dúzia de segundos - tenho-os contado. O ciclo vicioso estende-se e eu continuo sem apreender o real sentido das coisas. Nunca cheguei a perceber o porquê de termos sido os escolhidos para revelares toda a tua fúria para com a Humanidade. Conseguiste estragar tudo e transformar a festinha das luzes no poço mais sombrio e profundo. No entanto, eu perdoo-te porque me deste a capacidade de metamorfosear a minha envolvente e de conseguir encontrar bonança, tempestade após tempestade. A verdade é que consegues tornar-me útil aos outros e fazer com que eu seja capaz de sentir que continua a haver Natal para toda esta gente. É suficiente. Isso basta para que eu alimente cada um dos meus sonhos com as recordações das quais tu fazes parte. Consigo ver-te na primeira fila, ouvindo-me cantar o fado de olhos bem fechados. Consigo sentir o teu beijo na minha testa, depois de cada um dos "brilharetes", e não precisava de ouvir-te dizer-me o quão orgulhosa estavas de mim, para que o soubesse. Era capaz de te ver novamente escapando-te para a cozinha a rir, após ter elogiado os teus cozinhados, mesmo que o fizesse sempre comparativamente aos meus. Consigo sentir os teus olhos irradiarem um brilho particular, quando eu chegava da escola e tu esperavas junto ao jardim para me abraçar e perguntar quantas vezes tinha surpreendido a professora naquela manhã. No fundo, moldaste-me uma personalidade capaz de sorrir para as orquídeas que cresciam dentro e fora de ti, em ramos floridos e enérgicos. E era singular. Era singular o dom de me fazeres sempre acreditar em ti, no que dizias, no que sentias e no que idolatravas sem constestação. Ontem, hoje e sempre. E não haverá, jamais, conclusão possível para tudo o que te quereria dizer neste Natal... e até poderiam retirar o teu lugar da mesa, na ceia, que jamais o tirariam da minha alma, que preenches diariamente e alimentas de utopias, versos e génio. Continuas a iluminar o meu cérebro, continuas a alimentar as minhas ilusões, continuas a ler a minha mente e a transfigurar esmorecimento em alento. Descansa quanto ao que me pediste. Continuo a (tentar) seguir sempre o coração, se bem que ele me tem traído nos últimos tempos.



Para ti,

avó.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Era uma vez.



" Era uma vez um sentimento. Era uma vez uma alma. Era uma vez uma rua mergulhada nas brumas tumultuosas da amargura. Era uma vez um corpo desconexo, sem rosto, sem identidade, sem luz. Era uma vez um sonho, era. "



sábado, 29 de novembro de 2008

Maré vaza



Agora que o silêncio da noite se cinge ao negrume, sinto que partes

Foi talvez o derradeiro dia.

O último em que as nossas mãos se deram, o último em que os nossos olhos luziram, o último em que os nossos corpos caíram mortiços no poço imenso do vazio. Peço-te, porém, que imagines a encenação perfeita do nosso último momento. Peço-te que a tornes sublime aos olhos do deus no qual me dizias acreditar. Peço-te que a desenhes com contornos definidos e cores destoantes, que tonifiques os elementos da composição e salpiques de estrelas apagadas o céu que nos abrigava no instante. Consegues imaginar? Emprega, então, todo teu talento fantasista nessa derradeira memória, aprisiona-a em frases curtas e finaliza cada um dos pontos finais com caneta de tinta permanente. Envolve as folhas bolorentas num tecido aveludado que se funda na mensagem, e arruma tudo numa garrafa de vidro selada e derrotada pelo tempo. Inspira fundo. Quando sentires que a hora finalmente chegou, lança tudo de chofre na onda irrefutável do infinito e espera que o mar leve para sempre tudo o que outrora representei, ou não, para ti.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ser, em Português.


Nada faz sentido agora que não estás.
A chuva sufoca em vagas, o convés e o mastro,
Permanecendo eu só, nada me apraz
Sentença descrita, esculpida em alabastro.





segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Outro jardim, lúgubre.


És o presente, és o agora.
És o porto seguro onde me abarco,
E rebato em ti, nefasto
Caravela seduzida pelo abismo dos sentidos.
E não existirá hora da partida,
Enquanto partir e levar a minha alma junto da tua,
Âmago fora.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Fados Rasgados

"Era tempo. Era tempo de trancar a porta, apagar a luz, sentar-se na cadeira, levar as mãos ao rosto, e afogar todas as lembranças num suspiro.

A morte nunca seria o fim. E cada uma das recordações estava guardada no regaço impune da saudade. Era tempo de acentuar as palavras e aprender a pronunciar cada uma das sílabas com verdadeiro orgulho.
Estava um calor abafado no quarto. Lá fora, as nuvens carregadas de electricidade anunciavam uma daquelas tempestades de Verão de que ele tanto gostava.

O tempo passava e a luz continuava apagada. O tempo passava e a porta não se abria. O tempo passava e cada uma das recordações afogadas naquele suspiro imergia como peixes metamorfoseados na derrota.

Só as mãos, só as incoadunáveis mãos se prostravam agora para os céus em ascese. Não era arrependimento, nem tão pouco a culpa de não sentir. O rapaz decidira acender um pau de incenso e uma vela, e naquele mesmo instante, a tempestade rebentou.

Oscilavam sentimentos, desabaram corpo e alma. As lágrimas caiam-lhe agora pelo rosto ao ritmo da chuva que morria de encontro à calçada, enquanto imagens simples e recordações lhe enchiam a cabeça de pensamentos. Só conseguia lembrar-se do bailado das noites de Verão, das gotas de suor que a pele ia libertando enquanto o corpo deslizava ao som da música suave e o vestido negro balouçava e lhe redesenhava a silhueta. A arte fazia-se aos seus olhos e ficava ali guardada na intemporalidade das recordações que hoje o assaltavam.

A tempestade, o temor do som dos trovões, as luzes intermitentes. Tudo lhe irradiava a alma e lhe oferecia o passado como passaporte para o futuro. Não sabia quem era.

Segurava agora o pau de incenso e a vela, e chorava como uma criança a quem retiraram um brinquedo. A roupa, suja pela lama e molhada pela chuva, tornava aquela figura uma sombra perdida no meio das nuvens.

O ponteiro dos segundos girava freneticamente, e a cada movimento o rapaz ia perdendo a força de viver. Largou tudo. Mergulhou num mundo sem regresso. A sua silhueta disforme ia-se afastando num passo decidido ao longo da rua, e quebrava lentamente ao som das últimas gotas de chuva que ainda se faziam ouvir.



Atravessara dois quarteirões. Corria desvairadamente, sem norte, sem destino, sem nada. Com a roupa de gala a colar ao corpo molhado, estacou na praça principal, àquela hora deserta e ainda a recompor-se do dilúvio. Arrancou o que restava da gravata e atirou o tecido morto de encontro ao poste de electricidade mais próximo que lhe devolveu uma luz ténue e mortiça. Olhou em todas as direcções com o pânico espelhado no olhar vago e mutilado, e sentiu-se estranhamente observado pela estatuária que ornamentava os palacetes da avenida. Só agora se apercebia do longo caminho que percorrera até ali. Só agora passavam na sua cabeça todos os acontecimentos das últimas horas, como sketches inoportunos que rodavam em turbilhão na sua mente e sucumbiam as entranhas do seu abalado espírito. Lá em cima, junto ao edifício principal, um painel publicitário anunciava em letras gordas e intermitentes uma nova marca de lenços de papel e o respectivo brinde que consistia numa toalha de praia.
- Raio de sorte!
O rapaz dirigiu-se à paragem mais próxima, a pensar no autocarro que provavelmente nunca passaria, e ironia do destino, ou talvez não, o mesmo conjunto de lenços de papel piscou uma vez mais nos suportes da paragem, o que o irritou e fez pontapear uma lata para o meio da rua. Aquele barulho a qualquer hora do dia teria sido a coisa mais banal à face da terra, no entanto àquelas horas da madrugada, surtira nele um efeito de choque.

(...) "
Ricardo & Rita, Junho de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

Ausência

O ocaso resplandece.

Esqueçam tudo o que escrevi outrora.
Não sou mais esse que vos inspirou as veias, não mais serei um pião de madeira na palma das vossas mãos. Porque fados não são escritos nem descritos - são sentidos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

talvez não.


Foi no dia em que os sinos dobraram à luz tremeluzente do alívio, que senti, por fim, o abandono deste leque de ressentimentos. Desenhei teclas partidas, risquei partituras rasgadas, e pintei notas desafinadas em tons berrantes e exaustivos. Acabou. Rasguei tudo e coloquei, sem pudor, na memória vaga do baú. Abrira-se então, de par em par, um corredor estreito, quente e embalado pelo som de um 'Nocturno' nunca antes composto. Por que raio me havias de assaltar novamente a alma, o pensamento, e toda a minha silhueta disforme que sufocava de encontro às paredes nuas do corredor? As respostas tranformavam-se em pergunta, liam-se da esquerda para a direita, e precediam um símbolo que me pareceu uma clave de sol altiva mas incoerente.



Teria eu de atravessar todo o que corredor que me gritava o teu "Não" glaciar, a fim de descortinar o findar da agonia!?



Era cruel. Era injusto. Era terrível.



Ou talvez fosse o preço a pagar por reflectir sonhos em cada íris dos meus olhos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Não dá para aguentar mais! Vou contar-te:


Lembras-te do sorriso rasgado que o sol esboçava a cada girar da roda? Lembras-te dos meus olhos timidamente fixados nos teus, a suplicarem que me olhasses e mo dissesses, quando a voz insistia que desviasses o olhar? Lembras-te das minhas mãos suadas, trémulas e inseguras a segurar as tuas, e do largar profundo que sacudia a saudade e fazia renascer em mim a esperança de uma próxima vez ? Lembras-te da música que nos tocava com as suas asas, e dos minutos mornos em que olhavamos na mesma direcção, como um só, a chamar por ela?
Não quero que me ligues ou mandes uma mensagem confusa e indecisa, quando leres isto. Não quero sequer que faças um comentário enorme e inseguro, que me deixes de olhar, de chamar a música comigo, ou de me dar a mão. Quero que me continues a abraçar todos os dias. Quero poder continuar a sentir a luz dos teus olhos, o cheiro do teu cabelo, todas as manhãs solitárias, sem excepção. Quero que me digas tudo o que preciso de ouvir, e que me continues a dar todos os motivos e mais algum para que continue "preso" a ti, para sempre. E é ao som da chuva que hás-de ouvir o que os poetas escrevem, mas não murmuram. É ao ritmo da intermitência das luzes que vais segurar a utopia na palma das tuas mãos. E é à luz dos meus olhos, os que outrora eram incapazes de fixar os teus por breves instantes, que vais finalmente sentir o que me dilacera como fogo, presente, contigo.


Com carinho,
à Ana Queiroga.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008














"Eu procurei-te e tu surgiste em verso, bem na palma da minha mão. A utopia começava a escrever-se, límpida.

E tal como peixes a morrerem de encontro às malhas rudes da rede, as palavras morriam para o mundo, a fim de viverem para mim. Senti-me ingrato. Senti que mergulhava num universo recheado de pensamentos, apenas e só pensamentos. Sentia-os brotar naquele momento, em rebentos floridos, no jardim do espaço e do tempo. E nesse instante em que o monstro da poesia rugia de encontro ao meu peito, percebi que tinha saldado a dívida que me marcara a infância, e me fizera crescer rodeado de vagas tumultuosas.

Não corria a mais leve aragem, pelo que fechei os olhos e inspirei fundo. Sentia-me apaixonado e tentado a lutar, de novo. A vida voltara a ser o leque perfeito de pensamentos e memórias. Voltara a ser fácil ver as fotografias que não tiramos, ver os videos nunca gravados passarem, reais, no preto e branco da mente. E uma vez que os ponteiros de metal gritavam o avanço da hora, despia-me de fantasmas e levava-te comigo para a calmia soturna do profundo silêncio."

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

- Abismo -

AH! A ANGÚSTIA, a raiva vil, o desespero
De não poder confessar
Num tom de grito, num último grito austero
Meu coração a sangrar!

Falo, e as palavras que digo são um som
Sofro, e sou eu.
Ah! Arrancar à música o segredo do tom
Do grito seu!


Ah! Fúria de a dor nem ter sorte em gritar,
De o grito não ter
Alcance maior que o silêncio, que volta, do ar
Na noite sem ser!

(Fernando Pessoa, Cancioneiro)


Hoje sinto-me assim:
- Sinto, não sei se sinto ou se sei sentir o que sinto, se sinto o que sentiria se sentisse.
Hoje não sou capaz. Pura e simplesmente deixei que me cortassem as asas que me faziam voar, e escrever enquanto voava. E não quero que me digas "Sente!", não quero me grites "Não desistas e luta!", não tolero que me tentes sussurrar palavras de conforto. Eu não mereço o teu abraço, não quero o teu sorriso, e estou farto desses teus olhos que só tendem a cegar os meus. Chega! Preciso que pares. Acaba com toques puros, acaba com olhares penetrantes, e põe fim, de uma vez, à esperança que me dilacerava como fogo. Preciso do teu "Não" agora, amanhã, ou depois. Tretas! Tretas o que dizes sentir. Tretas o que me fazes pensar. Tretas, tretas, tretas! Que diabo é isto afinal !? Continua tu, só tu. No entanto, eu não quero continuar eu.

Preciso de algum tempo. Tempo para morrer e nascer de novo.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

- Outro "Sonho de Veludo" -

A,
Sinceramente, não sei o que hei-de pensar. Cada sonho surge como um avivar de imagens desfocadas. Está escuro, mas de repente alguém prime o interruptor e as pontas de ballet surgem ao fundo da sala de espelhos, mortas e incólumes de encontro ao soalho raso. Olha-me, olha-me outra vez. Perdoa-me a indiscrição, perdoa-me os olhares penetrantes, e os suspiros soturnos de contentamento. E porque sei que esta noite lá estarás novamente, não primas o interruptor... vem antes sentar-te ao meu lado, dá-me a tua mão, e voemos. "

ballet shoes Pictures, Images and Photos

Palavras, palavras, palavras.

"Não! Chegou a hora. As palavras deixaram de ser balões de água, deixaram de ser o maná. Não voltarei mais a atirá-las mortiças contra a parede da vida, não mais as estrangularei até lhes sugar todo o néctar lacrimejante que me saciava a fome de cultura. Basta de assassinar sinais de pontuação. Basta de pontapear a gramática, qual "Pessoa" enfurecido que é e não é ao mesmo tempo. Deixarei de 'escrever por escrever', e sei que chegou a altura de as juntar naquela preciosa e moribunda garrafa e lançá-las na maré ainda vaza da mente."


27 de Outubro de 2007

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Diamantes



«Falaram-me de diamantes. Não me disseram que eram pedras, não me falaram sequer em dinheiro ou pronunciaram a palavra "quilate". Fizeram-me simplesmente olhar para dentro, e vasculhar nos subúrbios da minha pequena alma, até descortinar o diamante em bruto que sou.


-Nós valemos pelo que somos, e nada nem ninguém pode penetrar nas nossas mentes e derrubar a vontade de amar e o querer ser feliz. Eu acredito, eu acreditarei sempre.

Falaram-me de diamantes. Falaram e logo senti estilhaçar-se uma ponta de desânimo. Estilhaçou-se como vidro na minha pele, e creio não mais assaltará as minhas noites ou os meus dias, nunca. Acabei de esquecer o que não consigo ser. Acabei de esvair em pó todos os metais não preciosos de que fui feito, outrora. A noite cai, e sinto que hoje, hoje não caio com ela. Doravante, serei eu próprio a velejar a minha caravela. Doravante, não haverá ressentimentos perante a crueldade do mundo, ou momentos de fraqueza capazes de me manchar os olhos de lágrimas. Eu sinto, eu posso, eu sou o ourives do meu próprio diamante, ainda em bruto.

Lá fora cai a noite, e cada constelação de diamantes percorre o meu olhar reluzente. A fadiga de estar só morreu quando vi um diamante mudar de trajectória. Não corre a mais leve aragem e cada piscar de olhos traz-me apenas a lembrança de que naquele dia... naquele dia me falaram de diamantes."»


Íris

"(...) porque a vida é demasiado importante para que desperdicemos uma parte dela longe de nós mesmos. Eu preciso de tempo para pensar, preciso de tempo para digerir as últimas semanas, que me passam na cabeça em 'sketches' inconstantes e oprimidos. Não morri, não deixei de sonhar. Apenas quero o meu refúgio de volta, com a música de fundo a embalar cada um dos meus pensamentos, cada piscar súbito dos meus olhos de novo monótono e indolor.

Eu preciso da noite e do dia, mas acima de tudo eu preciso de mim, de novo."


domingo, 7 de setembro de 2008

É certo

"Certo. É certo que o meu corpo e a minha alma emanam a destreza implacável da ausência. É certo que todos estes dias tem servido como teste. É certo. É certo que a vida é um turbilhão de cores e sabores. É certo que dela só resta o legado. É certa a brisa nocturna. São certos dois corpos, duas mentes, duas almas desconexas cuja identidade o vento agreste levou.

Certo, mas certo, é que eu regressei a este mundo ao qual pertenço.
Certo, mas certo, é que vou aprendendo com os erros furtuitos que cometo.

Estou cá, não para sempre... mas até amanhã. É certo."

17 de Outubro de 2007

Silvos

“Passam dias, passam horas, passam meses alicerçados a anos e tu persistes. Tu ficas, tu continuas tu, sempre tu. É especial, é diferente. E focando essencialmente o tempo a partir do qual ‘aterraste na minha vida’, o que posso eu dizer? Em que sentido temos nós caminhado?

-Não sei.

Sinto-te hoje melhor, sinto-me orgulhoso por poder ter-te visto subir cada um dos degraus que subiste, por te ter acompanhado na vitória de cada uma das batalhas travadas, por ter rido contigo, por ter atendido aquela ‘chamada relâmpago’ a meio da noite na qual dizias estar perdida, por ter tido o prazer de ver brilhar os teus olhos uma e outra vez prostrados nos meus. Tu jamais estarás perdida. Tu jamais caminharás sozinha, e jamais pegarás no pincel abandonada. Eu estarei sempre disposto a pintar tons quentes e suaves, traços bem definidos na ‘tela’ da tua vida.”

Tempo de maltratar cada uma das sílabas

"A fusão perfeita de um corpo e de um espírito.


Vou caminhando com passadas largas e decididas para o futuro. O tempo não mais será um problema, um pretexto. Acabaram-se os falsos temores, os falsos medos que me prendiam ao supérfluo, as falsas e vagas sepulturas mentais. Porque aprendi a acreditar nos virtuosos brilhos. Oh, vagos mas virtuosos brilhos!

A minha sombra deixou de ser negra e difusa, sempre esvaída no espaço eloquente. O tempo é."

De mãos (bem) dadas

Foram gestos. Foi o facto de seres, de sentires e quereres abraçar tudo o que sou sem pedir nada em troca, sem exigires de mim mais do que palavras, mais do que emoções. Passam horas, passam momentos e permanece o desejo intrínseco de te tocar, de te ter perto, presente. Lá fora, o vento sopra sem sequer pedir o nosso consentimento. Ausente ou presente, tornaste-te alguém. Não sei, não posso, nem sequer acho que deva tentar. Não vou enumerar adjectivos sonantes, não vou metaforizar tudo o que representas, não vou sequer discriminar tudo o que me fizeste ou fazes sentir. És demasiado especial, demasiado importante. Espero que tenhas noção de que és fulcral à minha vida, ou talvez não tenhas. Não sei até que ponto te possa convencer disso; convencer-te das minhas limitações, convencer-te das minhas fraquezas, convencer-te do que realmente defendo e no que realmente acredito. Na memória, ficarão mais do que beijos, mais do que meros suspiros. Lá fora, o vento continua a soprar.

O teu não de sempre mas para sempre amigo,
Ricardo Leitão.

Hoje

Passaram segundos. Passaram dias. Passaram séculos espontâneos desde o meu último suspiro. E hoje é dia. Hoje não existem máscaras que corroem a agonia de sentir. Hoje não existe perdão capaz de soltar o grito efémero da saudade. Hoje estou diferente, sinto-me diferente, ouço de maneira diferente. Hoje é dia de voltar a escrever por gosto. Hoje é dia de voltar a soltar suspiros carentes de palavras. Não atingi, porém, o topo. Não estou no limiar da felicidade, nem cobiço mais do que este estado de nostalgia, que não é mais do que um misto de serenidade e contentamento. Eu tenho-te. Eu sei que te tenho todos os nossos dias. Eu sei que posso sempre recorrer ao que uns dizem ser "O Segredo", e tu voltas como que instantaneamente a assaltar a minha alma, só tu e eu, sós. Não acredito que não penses em mim dez segundos por dia. Não acredito que me troques por programas evasivos ou por listas de compras rabiscadas em três tempos. Não posso sequer consentir que não amas tudo isto no que me tornei, e por isso, hoje é dia de ter certezas. Deixei de desenhar ressentimentos, deixei de pintar as minhas telas bolorentas em tons frios e sinuosos. Esqueci fobias antigas, esqueci olhares insignificantes e acabei de esquecer as "bocas" daqueles que para mim nada representam. Hoje, hoje é dia de me entregar de corpo e alma a um novo rumo, um rumo traçado numa folha de linhas, com uma caneta azul, e com a tua mão a segurar na minha.
O teu poeta,
Ricardo Leitão.

Cidade

"Transformei. Transformei as pedras gastas em lúcidos pontos finais. Abri a gaveta e retirei as fotografias a preto e branco que repousavam placidamente no cólo ebúrneo da solidão. Vislumbrei mil e um olhares displicentes, constatei a saudade de uma vida outrora sentida. Suspirei e pisquei fortemente os olhos, não fosse tratar-se de uma ilusão. Não. Desta vez era diferente. Coloquei o álbum novamente na gaveta, qual mãe colocando o seu rebento numa alcofa, sensível, maravilhada. Não era tarde, pouco passava ainda das duas da madrugada. Lá fora, o Porto fazia-se ouvir pelos uivos assustadores do vento. Senti um arrepio momentâneo e deixei o meu corpo roçar-se com mais frieza do que nunca de encontro ao pêlo do pijama. Porquê!? Porque haviam de arrancar-te de mim? Qual o motivo? Qual a crença? Qual a perfeita imperfeição? Lá fora, o vento continuava a fazer o seu papel. Soprava agora de encontro às janelas do prédio, inútil, desamparado, frio, só."


Ricardo Leitão ( dia 5, Fevereiro de 2008 )

Convicção

"Farás parte da minha essência, até ao momento em que a minha alma expulsará do meu corpo débil todas as tuas convicções, todos os teus medos, todos os teus desejos e sentimentos. Um final utópico que não faço questão de alterar."
Ricardo Leitão

Cai a noite

"Apagava a luz, e de uma vez por todas conseguia vislumbrar a claridade até então morta. Sentia-me como se o mundo fosse perfeito, a vida perfeita e toda a tua imperfeição perfeita também. Não estava enganado, a porta abria-se novamente de par em par e estava ali, de novo à mercê dos meus passos, dos meus gestos, do meu ser."


Ricardo Leitão (04/03/2008)

ausência

"Sete dias. Parei para, pela primeira vez, meter a mão à consciência e ver a triste realidade. Sete dias passados num trapézio sem rede, balanceando o meu corpo ao sabor das viragens de uma alma trémula e trespassada. Abri mão do futuro. Onde estavas Tu, meu Deus, naquele momento cruel? Em que trapézios balanceavas Tu o Teu espírito, aquando daquela hora de infortúnios? Não sei. Vou caminhando lentamente atrávés das folhas de pergaminho bolorentas e carcomidas. Sinto que nada poderá, doravante, saciar a minha sede de ti. Consigo sentir o calor das tuas vestes de encontro às minhas. Consigo sentir o toque dos teus dedos finos e húmidos de êxtase de encontro às minhas mãos. Consigo ver os teus olhos defronte da minha face colhida pela saudade. Porém, o terreno não é suficiente. Pedestal a pedestal, embrenho-me pelas desventuras do tempo. Despi o medo, despi o receio da verdade. Esqueci completamente a dolorosa pega da morte. Hoje, as incertezas naufragaram ao largo da minha praia. Agora sei que nada é em vão, e sei que não tenho medo de morrer. Ausência. Nada colmatará nunca a tua ausência."


15 de Novembro de 2007