quarta-feira, 1 de abril de 2009

Círculo de Fogo


Tinha queimado mais um dia.

Metafísicas as palavras que profiro, sem retorno.

Sufocantes as vozes que ouço, no vazio.

Inúteis os passos que dou, no sargaço.


E eu corro em círculos, eu corro em círculos.

Ricardo Leitão

domingo, 22 de março de 2009

Chão

Não corria a mais leve aragem, quando a cidade se refastelou na porltrona de todos os dias a assistir ao noticiário das oito em ponto - permaneci indiferente ao súbito suspiro rotineiro. Entrei no elevador - deserto. Premi o '0' e preparei-me para o jogo mental que fazia sempre que me encontrava num elevador: debater-me contra a possibilidade de um dia querer sair de um e não ter oportunidade. Lembro-me ainda de me ter cruzado no hall de entrada com a senhora do 1ºD, que de robe às florzinhas e chinelos de quarto do tipo "refugiado de guerra" empunhava a correspondência carrancuda - saí.
Não me lembro de mais nada. Acordei deitado na cama, com a roupa vestida, alagado em suor e com a sensação de que algo de muito estranho acontecera naquela noite. E para não variar, foi no duche que as peças do puzzle se começaram a encaixar - tu estiveras lá. Tu passaras por mim na rua. Tu que me havias seguido para aquela viela. Tu que escutaras os meus gritos abafados pelas árvores daquele jardim. Tu que pararas o baloiço que eu deixei agoniado naquele parque infantil. Tu que conseguiste entender a minha fúria para com o mundo naquela altura em que as centenas de pontos de luz, desenhados por mim no céu, se apagaram. Tu, só tu.

Tu que estiveras sempre presente, na minha ausência.
(...)

Ricardo Leitão

quinta-feira, 12 de março de 2009

Senses - Smell


“Fragrâncias únicas. A pele queimada pelo sol exalava um aroma místico e indefinido. Contrastes, dicotomias entre cores e cheiros. Na atmosfera irreal ficavam sempre aromas que o vento insistia em recordar. Terra fresca, fertilizantes, lírios brancos, a rosa encarnada acabada de colher ou uma gota de orvalho. Tudo funcionava como catarse da alma, catarse do espírito.”

( Ricardo Leitão, in 'senses' © )

quarta-feira, 11 de março de 2009

Senses - Palate


“Crepúsculo.

Sentimentos vagos que culminam na alegria de viver com simplicidade.
Assim que arrumava todas as armas incólumes, despia uma ou outra árvore de fruto. A maçã sumarenta suplicava pela vida. Oh! Incoadunável vida! Num gesto irónico mas repleto de certeza, desposava o fruto de toda a cor.”


( Ricardo Leitão, in 'senses' © )

segunda-feira, 9 de março de 2009

Senses - Audition


“A experiência desabrochava de encontro à alvorada. A sua memória era assaltada pelos Invernos passados, pelos olhares tépidos assassinados de encontro às pedras frias e gastas da lareira. O seu xaile escondia cada uma das histórias, submergia cada uma das telas pintadas, abafava cada um dos seus gritos mudos.”

( Ricardo Leitão, in 'senses' © )

domingo, 8 de março de 2009

Senses - Touch


“O sol morria de encontro ao horizonte. Fazia os seus raios fuzilar cada um dos corpos ténues, cada um dos eucaliptos erguidos em ascese. As feridas abertas e delineadas das suas mãos, embrenhavam-se naquele labirinto terrífico. A terra e a água eram o néctar lacrimante que saciava a sua sede de liberdade, a sua sede de céu.”
( Ricardo Leitão, in 'senses' © )

quinta-feira, 5 de março de 2009

Senses - Vision


“O tempo é. O tempo voa e faz voar olhares dispersos. As páginas bolorentas do tempo ditavam cada uma das letras do seu fado. De olhos e alma vendados, entregava o seu corpo nas mãos do destino. Um cruel e obscuro destino.”
( Ricardo Leitão, in 'senses' © )

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sem Título


"Refreio o meu abismo: pressinto e enleio o toque do que te roubei, subjugado."


(Ricardo Leitão)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Não te abandonarei ao vento, ininterrupto.


Com a chuva submerge a mágoa
Com o vento varre-se a dor.
E a conivência de corpos de aço,
Que choraram outrora o fracasso
Propaga como clamor.

_

As nuvens sombrias alastram e os corpos caem mortiços nos terraços salgados da miséria.
Enjeito cada uma das vozes displicentes que ousaram afogar o meu cérebro num poço vazio.
Não te abandonarei ao vento, ininterrupto.

Ricardo Leitão

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Breve reminiscência



Eis aqui o teu gesto, espelho de Proteu.
O vazio redesenha o teu semblante
Através da folhagem farta dos dias.

Cessem as mares inflexíveis,
Ecludam as intempéries anunciadas!


Eis a fúria da razão sob o manto pesado da respiração de Janeiro.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Fado, em mim.


Cantai, ó almas ingratas!
Esculpi tons harmónicos,
Nas velas das vossas fragatas.


Aventurai-vos pela cordas vibrantes do destino. Senti o leme bem prostrado e o vento bater-vos nos cabelos. Não desistais à primeira onda de infortúnios. Não hesiteis à segunda. Confiai na volúpia do arco, confiai na audácia das trombetas e ousai cantar recordações. Não nasceis derrotados, cresceis derrotados, ou nem sequer tereis o prazer de morrer, derrotados ou não! Enquanto houver alma lusitana, não estareis sós. Respeitai o choro da nossa guitarra, atemporal. Temer, temei antes o seu silêncio. O instante é o momento, e o medo é o pesadelo do qual nós, herdeiros de Camões, já acordamos há muito tempo!

Esperança - o fado ainda é nosso.


r.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Fado, para ti.



Natal.

Passaram mil e oitenta e sete dias, dez horas, sete minutos e meia-dúzia de segundos - tenho-os contado. O ciclo vicioso estende-se e eu continuo sem apreender o real sentido das coisas. Nunca cheguei a perceber o porquê de termos sido os escolhidos para revelares toda a tua fúria para com a Humanidade. Conseguiste estragar tudo e transformar a festinha das luzes no poço mais sombrio e profundo. No entanto, eu perdoo-te porque me deste a capacidade de metamorfosear a minha envolvente e de conseguir encontrar bonança, tempestade após tempestade. A verdade é que consegues tornar-me útil aos outros e fazer com que eu seja capaz de sentir que continua a haver Natal para toda esta gente. É suficiente. Isso basta para que eu alimente cada um dos meus sonhos com as recordações das quais tu fazes parte. Consigo ver-te na primeira fila, ouvindo-me cantar o fado de olhos bem fechados. Consigo sentir o teu beijo na minha testa, depois de cada um dos "brilharetes", e não precisava de ouvir-te dizer-me o quão orgulhosa estavas de mim, para que o soubesse. Era capaz de te ver novamente escapando-te para a cozinha a rir, após ter elogiado os teus cozinhados, mesmo que o fizesse sempre comparativamente aos meus. Consigo sentir os teus olhos irradiarem um brilho particular, quando eu chegava da escola e tu esperavas junto ao jardim para me abraçar e perguntar quantas vezes tinha surpreendido a professora naquela manhã. No fundo, moldaste-me uma personalidade capaz de sorrir para as orquídeas que cresciam dentro e fora de ti, em ramos floridos e enérgicos. E era singular. Era singular o dom de me fazeres sempre acreditar em ti, no que dizias, no que sentias e no que idolatravas sem constestação. Ontem, hoje e sempre. E não haverá, jamais, conclusão possível para tudo o que te quereria dizer neste Natal... e até poderiam retirar o teu lugar da mesa, na ceia, que jamais o tirariam da minha alma, que preenches diariamente e alimentas de utopias, versos e génio. Continuas a iluminar o meu cérebro, continuas a alimentar as minhas ilusões, continuas a ler a minha mente e a transfigurar esmorecimento em alento. Descansa quanto ao que me pediste. Continuo a (tentar) seguir sempre o coração, se bem que ele me tem traído nos últimos tempos.



Para ti,

avó.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Era uma vez.



" Era uma vez um sentimento. Era uma vez uma alma. Era uma vez uma rua mergulhada nas brumas tumultuosas da amargura. Era uma vez um corpo desconexo, sem rosto, sem identidade, sem luz. Era uma vez um sonho, era. "



sábado, 29 de novembro de 2008

Maré vaza



Agora que o silêncio da noite se cinge ao negrume, sinto que partes

Foi talvez o derradeiro dia.

O último em que as nossas mãos se deram, o último em que os nossos olhos luziram, o último em que os nossos corpos caíram mortiços no poço imenso do vazio. Peço-te, porém, que imagines a encenação perfeita do nosso último momento. Peço-te que a tornes sublime aos olhos do deus no qual me dizias acreditar. Peço-te que a desenhes com contornos definidos e cores destoantes, que tonifiques os elementos da composição e salpiques de estrelas apagadas o céu que nos abrigava no instante. Consegues imaginar? Emprega, então, todo teu talento fantasista nessa derradeira memória, aprisiona-a em frases curtas e finaliza cada um dos pontos finais com caneta de tinta permanente. Envolve as folhas bolorentas num tecido aveludado que se funda na mensagem, e arruma tudo numa garrafa de vidro selada e derrotada pelo tempo. Inspira fundo. Quando sentires que a hora finalmente chegou, lança tudo de chofre na onda irrefutável do infinito e espera que o mar leve para sempre tudo o que outrora representei, ou não, para ti.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ser, em Português.


Nada faz sentido agora que não estás.
A chuva sufoca em vagas, o convés e o mastro,
Permanecendo eu só, nada me apraz
Sentença descrita, esculpida em alabastro.





segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Outro jardim, lúgubre.


És o presente, és o agora.
És o porto seguro onde me abarco,
E rebato em ti, nefasto
Caravela seduzida pelo abismo dos sentidos.
E não existirá hora da partida,
Enquanto partir e levar a minha alma junto da tua,
Âmago fora.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Fados Rasgados

"Era tempo. Era tempo de trancar a porta, apagar a luz, sentar-se na cadeira, levar as mãos ao rosto, e afogar todas as lembranças num suspiro.

A morte nunca seria o fim. E cada uma das recordações estava guardada no regaço impune da saudade. Era tempo de acentuar as palavras e aprender a pronunciar cada uma das sílabas com verdadeiro orgulho.
Estava um calor abafado no quarto. Lá fora, as nuvens carregadas de electricidade anunciavam uma daquelas tempestades de Verão de que ele tanto gostava.

O tempo passava e a luz continuava apagada. O tempo passava e a porta não se abria. O tempo passava e cada uma das recordações afogadas naquele suspiro imergia como peixes metamorfoseados na derrota.

Só as mãos, só as incoadunáveis mãos se prostravam agora para os céus em ascese. Não era arrependimento, nem tão pouco a culpa de não sentir. O rapaz decidira acender um pau de incenso e uma vela, e naquele mesmo instante, a tempestade rebentou.

Oscilavam sentimentos, desabaram corpo e alma. As lágrimas caiam-lhe agora pelo rosto ao ritmo da chuva que morria de encontro à calçada, enquanto imagens simples e recordações lhe enchiam a cabeça de pensamentos. Só conseguia lembrar-se do bailado das noites de Verão, das gotas de suor que a pele ia libertando enquanto o corpo deslizava ao som da música suave e o vestido negro balouçava e lhe redesenhava a silhueta. A arte fazia-se aos seus olhos e ficava ali guardada na intemporalidade das recordações que hoje o assaltavam.

A tempestade, o temor do som dos trovões, as luzes intermitentes. Tudo lhe irradiava a alma e lhe oferecia o passado como passaporte para o futuro. Não sabia quem era.

Segurava agora o pau de incenso e a vela, e chorava como uma criança a quem retiraram um brinquedo. A roupa, suja pela lama e molhada pela chuva, tornava aquela figura uma sombra perdida no meio das nuvens.

O ponteiro dos segundos girava freneticamente, e a cada movimento o rapaz ia perdendo a força de viver. Largou tudo. Mergulhou num mundo sem regresso. A sua silhueta disforme ia-se afastando num passo decidido ao longo da rua, e quebrava lentamente ao som das últimas gotas de chuva que ainda se faziam ouvir.



Atravessara dois quarteirões. Corria desvairadamente, sem norte, sem destino, sem nada. Com a roupa de gala a colar ao corpo molhado, estacou na praça principal, àquela hora deserta e ainda a recompor-se do dilúvio. Arrancou o que restava da gravata e atirou o tecido morto de encontro ao poste de electricidade mais próximo que lhe devolveu uma luz ténue e mortiça. Olhou em todas as direcções com o pânico espelhado no olhar vago e mutilado, e sentiu-se estranhamente observado pela estatuária que ornamentava os palacetes da avenida. Só agora se apercebia do longo caminho que percorrera até ali. Só agora passavam na sua cabeça todos os acontecimentos das últimas horas, como sketches inoportunos que rodavam em turbilhão na sua mente e sucumbiam as entranhas do seu abalado espírito. Lá em cima, junto ao edifício principal, um painel publicitário anunciava em letras gordas e intermitentes uma nova marca de lenços de papel e o respectivo brinde que consistia numa toalha de praia.
- Raio de sorte!
O rapaz dirigiu-se à paragem mais próxima, a pensar no autocarro que provavelmente nunca passaria, e ironia do destino, ou talvez não, o mesmo conjunto de lenços de papel piscou uma vez mais nos suportes da paragem, o que o irritou e fez pontapear uma lata para o meio da rua. Aquele barulho a qualquer hora do dia teria sido a coisa mais banal à face da terra, no entanto àquelas horas da madrugada, surtira nele um efeito de choque.

(...) "
Ricardo & Rita, Junho de 2008

domingo, 12 de outubro de 2008

Ausência

O ocaso resplandece.

Esqueçam tudo o que escrevi outrora.
Não sou mais esse que vos inspirou as veias, não mais serei um pião de madeira na palma das vossas mãos. Porque fados não são escritos nem descritos - são sentidos.